Arte & Desenho

Antes do desenho, existe o olhar

Desenhar não começa quando o lápis toca o papel. Começa quando aprendemos a observar.

Quando pensamos em desenhar, é comum imaginar que tudo começa com um lápis sobre uma folha em branco.

Mas talvez o desenho comece um pouco antes.

Começa no olhar.

Antes de traçar uma linha, existe aquilo que percebemos. Antes de procurar uma proporção, existe aquilo que conseguimos comparar. Antes de tentar reproduzir uma textura, precisamos perceber que ela está ali.

Desenhar é, em grande parte, aprender a enxergar.

Olhar não é apenas ver

Duas pessoas podem observar o mesmo objeto e perceber coisas completamente diferentes.

Uma pode enxergar apenas uma xícara.

Outra pode perceber o formato da alça, a pequena sombra projetada sobre a mesa, a diferença entre a parte iluminada e a parte escura, o reflexo quase imperceptível na superfície e até a maneira como a luz muda a aparência da cor.

O objeto é o mesmo.

O olhar é que mudou.

É por isso que, muitas vezes, o desenho não melhora simplesmente porque praticamos mais movimentos com o lápis. Ele melhora quando começamos a perceber aquilo que antes passava despercebido.

O desenho está cheio de pequenas comparações

Quando desenhamos uma pessoa, por exemplo, não precisamos enxergar apenas um rosto.

Podemos observar:

A distância entre os olhos.

A inclinação da cabeça.

O espaço entre o nariz e a boca.

A forma como uma sombra atravessa a bochecha.

O contorno que a luz deixa aparecer no cabelo.

Como vimos em A sombra também desenha, a luz não apenas ilumina: ela também ajuda a revelar formas.

Nenhuma dessas coisas precisa ser percebida de maneira exagerada.

Na verdade, muitas vezes são justamente os detalhes mais discretos que fazem um desenho parecer mais próximo daquilo que estamos observando.

E existe algo ainda mais importante: observar antes de corrigir

Quando uma linha parece errada, nossa primeira reação costuma ser apagá-la.

Mas antes de apagar, vale perguntar:

O que exatamente está errado?

É a direção?

O tamanho?

A proporção?

A posição?

Ou será que estamos comparando aquela parte isoladamente, sem observar sua relação com o restante do desenho?

Essa pausa pode parecer pequena, mas muda completamente o processo.

Em vez de simplesmente corrigir uma linha, começamos a entender por que ela não funciona.

E é aí que o desenho deixa de ser apenas reprodução e começa a se tornar percepção.

O olhar também aprende

No início, algumas diferenças parecem invisíveis.

Com o tempo, começamos a perceber.

Uma sombra que antes parecia apenas cinza passa a revelar diferentes intensidades.

Uma superfície aparentemente lisa começa a mostrar pequenas variações.

Uma expressão que parecia simples ganha novos contornos.

Não significa que nossos olhos mudaram.

Nossa atenção mudou.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas de aprender a desenhar.

Não aprendemos apenas a colocar algo no papel.

Aprendemos a perceber melhor aquilo que está diante de nós.

Talvez seja por isso que desenhar seja também uma forma de desacelerar

Em um mundo acostumado a imagens rápidas, observar uma única referência durante vários minutos pode parecer pouco.

Mas é justamente nesse tempo que coisas novas começam a aparecer.

O que parecia simples deixa de ser.

O que parecia uniforme ganha variações.

O que parecia pequeno se torna importante.

E aquilo que passaria despercebido começa a participar do desenho.

Antes do desenho, existe o olhar.

E quanto mais aprendemos a olhar, menos precisamos lutar para fazer o lápis mostrar aquilo que já estamos vendo.

O desenho começa muito antes da primeira linha. Começa no momento em que decidimos realmente olhar.

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